
"Eu só queria ser perfeita”, diz a personagem de Natalie Portman a certa altura de “Cisne Negro”. A fala resume o conflito psicológico que serve de motor para o filme, um mergulho na mente perturbada de Nina, bailarina em crise vivida por Portman.
O filme retrata uma situação limite. Mas quem já quis ser perfeito sabe que esse é o caminho mais curto para a infelicidade.
Humanos que somos, a imperfeição é exatamente o que nos caracteriza. E, como disse Shirley MacLaine numa entrevista na Oprah (já que ando falando da entrevistadora) "Devemos buscar a aceitação, não a perfeição"
Quem busca a perfeição não se aceita. Não tem como, são duas coisas incompatíveís. Ou você se abraça inteiro e aceita seus "defeitos", ou passa a vida inteira buscando a "perfeição" e achando que não é bom o bastante. (e pensando assim, nunca será)
Como me dão nos nervos essas pessoas estilo "Sandy" de ser, sempre impecáveis, politicamente corretas, que vivem pisando em ovos, com medo de errar ou fazer feio. Gente assim se leva muito a sério e parece incapaz de relaxar numa roda entre amigos. (Você convidaria a Nina do filme para uma cerveja?)
Já a Shirley MacLaine, atriz consagrada que ficou famosa por suas atuações, vida pessoal conturbada e fitas de ginástica, (naquela época era fita e era ginástica) tem hoje uma sabedoria que impressiona mais que o corpinho de trinta e cinco anos (ela tem setenta)
Mas nem sempre foi assim: nos tempos de maior sucesso (incluindo Oscar, muito dinheiro e muito prestígio) ela se sentia miserável por conta dessa loucura de querer ser "perfeita". Nunca estava bom. Nem poderia.
É como disse a Zíbia Gasparetto na entrevista da Claudia nesse mês: "Gay que sai do armário fica muito mais forte" Claro ! Mais forte e mais feliz, imagino.
É o caso de parar pra pensar, procurar nos arquivos mentais: Quando você se sente bem consigo mesmo? Qual a última vez que você parou e pensou "porra, eu tô feliz pra caralho, eu tô bem!" ? Com certeza não foi num momento de crítica ou de auto flagelação; você deve ter rido de si mesmo, deve ter se arriscado numa situação nova sem medo de fazer papel ridículo, deve ter sido um pouco mais compreensivo, mais paciente. De repente até conseguiu olhar o outro e se ver (com compaixão) na imperfeição dele. Ou então, ao contrário, alguém passou dos limites e você mandou pra puta que pariu (chutar o pau da barraca de vez em quando também pode ser bem saudável)
Eu não estou pregando o conformismo, a miséria, a inércia. Não! O objetivo é a evolução, sempre! Mas esse desejo pelo melhor deve partir da aceitação, não da negação de si mesmo. Não podemos agir como se estivéssemos " consertando algo de errado" em nós. Não há nada de errado conosco. Ah, que delícia perceber isso.